Crescimento das vendas de carne impulsiona pressão sobre florestas, acende alertas ambientais e reacende debate sobre o modelo agropecuário boliviano.
Especialistas vêm alertando há anos: o desmatamento e a exportação de carne caminham juntos na Bolívia. A fazenda Juan Deriba, onde produz gado sem hormônios e com manejo rotativo, é uma exceção em meio a vastas áreas de soja, arroz e pastagens abertas após anos de derrubada de florestas. O salto das exportações de carne foi vertiginoso. Em 2012, a Bolívia vendeu 1.174 toneladas por US$ 6 milhões. Apenas nos primeiros seis meses deste ano, já foram 17.542 toneladas, somando US$ 82,5 milhões — 65% destinadas à China. Em 2020, a fatia chinesa chegou a 84%.
O avanço ocorre paralelamente ao aumento do desmatamento. O país ocupa o 3º lugar global em perda de florestas primárias, com 385 mil hectares derrubados em 2022, posição mantida em 2023. A maior parte dessa pressão recai sobre Santa Cruz, também o principal polo exportador. Parte dessa expansão foi respaldada por políticas oficiais: em julho de 2019, às vésperas da abertura para o mercado chinês, um decreto autorizou desmatamento e queimadas controladas. Revogado no ano seguinte, o novo texto não proibiu de forma clara o uso do fogo para fins agroindustriais.
Enquanto o país persegue a meta da Agenda Patriótica 2025 — dobrar o rebanho nacional para duas cabeças de gado por habitante —, iniciativas tentam frear o impacto ambiental associado ao modelo dominante. Na Reserva Barba Azul, no departamento de Beni, a ONG Armonía desenvolve pecuária sustentável em savanas alagadas. Segundo o diretor de conservação, Tjalle Boorsma, práticas como pastoreio rotativo, manejo racional do fogo e melhorias no bem-estar animal elevaram a taxa de nascimento de bezerros de 50% para quase 70%. “É uma gestão diferente, mas que mostra resultados”, afirma. A organização planeja lançar uma certificação de carne sustentável.
Em Santa Cruz, uma das regiões mais afetadas por incêndios, a Fundação de Conservação Florestal de Chiquitano (FCBC) aposta na criação regenerativa. Hermes Justiniano, supervisor do programa PRIAS, explica que o método se baseia em solo vivo e diversidade de plantas, reduzindo a dependência de agroquímicos e mecanização. “É a única forma de manter produtividade sem abrir novas áreas”, diz. Ele alerta que o ciclo tradicional — arar, aplicar fertilizante, esgotar o solo em poucos anos — alimenta a necessidade constante de desmatamento.
A relação entre desmatamento, exportação de carne e mudanças climáticas já produz efeitos concretos. Um estudo da Fundación Tierra prevê que Santa Cruz enfrentará temperaturas mais altas e secas mais severas. Marlene Quintanilla, diretora de pesquisa da Fundação Amigos da Natureza (FAN), aponta que a perda de floresta impede a formação de umidade suficiente para gerar chuvas. “A falta de planejamento baseado em ciência está custando milhões em perdas econômicas”, alerta. As comunidades rurais, diz ela, sofrem tanto quanto os produtores, que já contabilizam redução de rebanhos e lavouras.
À medida que a exportação de carne cresce e reforça a economia boliviana, o desmatamento impõe um custo alto para o futuro do país: mais calor, mais secas, mais incêndios e mais instabilidade produtiva. O debate sobre como avançar sem ampliar a destruição ganha força entre ambientalistas, produtores e organizações científicas. No centro da discussão, uma equação permanece sem solução fácil: como expandir a exportação de carne sem aprofundar o desmatamento — desafio que definirá os próximos anos do setor agropecuário boliviano.
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