Região amazônica colombiana enfrenta alta de alertas, disputas entre grupos armados e atrasos em programas ambientais, enquanto comunidades tentam manter a floresta de pé.
Do alto, a estrada que liga Calamar a Miraflores parece cortar Guaviare como uma ferida aberta. A floresta perde densidade à medida que a via avança, revelando clareiras, plantações de coca e faixas extensas de pasto. O cenário aéreo resume um problema que insiste em se repetir: apesar de avanços pontuais, o desmatamento segue assombrando um dos departamentos mais pressionados da Amazônia colombiana.
“Sempre tivemos uma vocação errada em relação à criação de gado”, afirma Willy Alejandro Rodríguez Rojas, prefeito de San José del Guaviare. Ele aponta um histórico de ocupação que combinou pecuária extensiva, grilagem, estradas clandestinas e cultivos ilícitos — um modelo que, segundo ele, nunca respeitou as especificidades da Amazônia. Em 2025, porém, o debate ambiental perdeu espaço para a crise de segurança: “Se não formos capazes de pedir a preservação da vida, muito menos a preservação de nossas florestas”, disse durante encontro da Iniciativa Inter-Religiosa para Florestas Tropicais.
Nos últimos meses, o departamento viveu episódios que reforçam o clima de tensão. A casa do prefeito de Calamar foi atacada com drones; sete menores morreram em uma ofensiva militar contra dissidentes das FARC liderados por Iván Mordisco; 34 soldados foram sequestrados; e um jornalista foi baleado. “Hoje existem grupos de grupos”, resume Rodríguez. A disputa entre facções por extorsão, território e folha de coca coloca as comunidades em situação permanente de vulnerabilidade.
O modelo de ocupação que devastou a floresta não é novo. “Quando os colonos chegaram e viram as savanas naturais, acharam que era igual ao Meta”, explica Julio Roberto del Cairo, da CINDAP. No início do século XX, políticas de povoamento incentivaram pecuária e agricultura como se o território fosse uma planície comum — e não parte da Amazônia. “Eles estavam comendo a selva”, afirma.
Nos últimos anos, padrões recentes de desmatamento passaram a refletir diretamente os conflitos. Depois de atingir seu pico em 2018, com quase 45 mil hectares derrubados após o Acordo de Paz, Guaviare conseguiu reduzir a devastação até 2023, quando houve queda de 27%, segundo o Ideam. Em 2025, a preocupação voltou a crescer: o primeiro boletim de alerta antecipado registrou quatro núcleos críticos de janeiro a março, impulsionados por queimadas intensas e expansão de trilhas ilegais conectadas à Marginal de la Selva.
Para a segunda metade do ano, os indicadores se tornaram mais contraditórios. Os alertas na Amazônia colombiana caíram 16% entre abril e junho, mas Guaviare registrou 167 hectares a mais desmatados que no mesmo período de 2024. Ainda assim, gestores ambientais observam sinais positivos. “A água retornou. Mantivemos afluentes em plena capacidade como não acontecia há 20 anos”, diz Felipe Esponda, diretor da CDA. Ele reforça, porém, que o problema está longe de resolvido.
Entre avanços e retrocessos, o governo colombiano tenta reformular a abordagem. Áreas antes chamadas de “núcleos de desmatamento” passaram a ser apresentadas como “núcleos de desenvolvimento florestal e biodiversidade”. A proposta inclui pagamento por serviços ambientais e projetos de reconversão produtiva, reflorestamento e manejo sustentável. O desafio é transformar discurso em presença contínua no território.
Em Guaviare, a execução varia conforme a realidade local. Esponda explica que a CDA enfrenta dificuldades em núcleos como Manavires e Angoletas devido ao contexto de ordem pública. Soma-se a isso o atraso nos pagamentos do programa Conservar Paga, de cerca de 900 mil pesos mensais, que já acumulam até nove meses de espera para 1.450 famílias. “A comunidade não entende que não decidimos quando o pagamento sai”, afirma.
Em outra frente, o Instituto Sinchi relata avanços mais sólidos. Três núcleos sob sua coordenação já trabalham com 1.113 famílias em restauração florestal, transição agroecológica e manejo sustentável. Além disso, 49 moradores fazem formação como extensionistas florestais. “Estamos no momento mais alto da execução dos programas”, afirma o vice-diretor científico Jaime Barrera García, destacando que pagamentos retroativos foram regularizados nesses casos.
O Ministério do Meio Ambiente, que ainda não esclareceu os motivos dos atrasos, anunciou em outubro a ampliação do programa para atingir 9.000 acordos de conservação até o fim de 2026, cobrindo 350 mil hectares. Segundo o governo, a taxa de cumprimento das famílias participantes é de 98%.
Apesar dos esforços, Guaviare continua no limiar entre avanço e ameaça. O desmatamento persiste, alimentado por conflitos, ocupação irregular e mudanças climáticas, mas também por um histórico de abandono institucional. O desafio agora é garantir que o ciclo não se repita — e que a floresta permaneça de pé em um território onde a segurança e o clima já não permitem margem para erros.
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