Iniciativa de ciência cidadã utiliza aplicativo digital para registrar fauna e flora em área de regeneração há 50 anos.
A Embrapa Amazônia Oriental realiza neste sábado (23), em Belém (PA), uma ação de observação científica participativa na Capoeira do Black, fragmento florestal urbano localizado na sede da instituição. A atividade integra a Semana Nacional da Biodiversidade e convida o público a registrar espécies de fauna, flora e fungos por meio do aplicativo gratuito iNaturalist. Financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a iniciativa converte o celular em ferramenta de monitoramento ambiental, inserindo a comunidade diretamente na produção de dados sobre a regeneração da floresta amazônica e a preservação de ecossistemas periféricos.
A ação na capital paraense faz parte de uma mobilização nacional proposta pela Aliança pelo Monitoramento Participativo da Biodiversidade Brasileira (AmpBio), programada para ocorrer entre os dias 18 e 24. O evento na Capoeira do Black será dividido em três expedições guiadas com duração de 50 minutos cada, iniciando às 9h, 10h e 11h. Embora a participação seja gratuita, o acesso é limitado por um sistema de inscrições prévias promovido pelo Centro Capoeira, órgão coordenado pela própria Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária.
O local escolhido possui 8,5 hectares e acumula mais de 50 anos de regeneração natural induzida. Inventários anteriores desenvolvidos por pesquisadores na área já catalogaram mais de 1.000 árvores e arbustos, distribuídos em 260 espécies e 54 famílias botânicas. Além da flora, o fragmento serve de refúgio para populações de insetos, aves e pequenos mamíferos cercados pelo adensamento urbano de Belém, funcionando como um laboratório vivo para o estudo de resiliência ecológica.
A inclusão da comunidade local no mapeamento biológico materializa o conceito de ciência cidadã, rompendo o isolamento histórico dos laboratórios e democratizando a produção do conhecimento. Ao fornecer ferramentas digitais de identificação biológica, o projeto capacita os moradores das periferias urbanas a reconhecerem o valor ecológico das áreas verdes remanescentes. Essa apropriação do espaço público estimula uma consciência crítica sobre o direito à cidade e a urgência da justiça ambiental.
Contudo, a metodologia esbarra em limitações estruturais típicas do ambiente digital. A ausência de pacotes de dados móveis acessíveis ou de letramento tecnológico avançado entre populações vulneráveis pode restringir o perfil dos participantes a círculos acadêmicos ou de classe média. Além disso, a validade das informações coletadas exige um esforço contínuo de curadoria científica para triar o material, um processo complexo que expõe a necessidade de financiamento público permanente para que o monitoramento participativo de fato se consolide.
A pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa, explica que o engajamento da população atua como um braço estendido da pesquisa convencional, acelerando a coleta de amostras de campo: “A atividade é baseada no conceito de ciência cidadã. Nesse modelo, participantes fotografam organismos encontrados no percurso e os registros passam por curadoria científica antes de integrar uma base de dados global. O processo pode ampliar a disponibilidade de informações úteis para estudos científicos.”
A relevância do contato direto entre os cidadãos e as dinâmicas de recomposição florestal em meio ao concreto das cidades é detalhada pela pesquisadora Lis Stegmann, do Museu Paraense Emílio Goeldi: “A observação direta em fragmentos urbanos ajuda a compreender a dinâmica ecológica e a importância da conservação florestal.”
As trilhas programadas pela organização possuem nível leve, sendo recomendadas para crianças, adultos e idosos, sob a exigência do uso de calças, calçados fechados e hidratação individual. As imagens validadas pelos especialistas após o evento alimentarão a plataforma mundial do iNaturalist, gerando novos subsídios para o mapeamento biogeográfico da Amazônia urbana. A Embrapa não divulgou o teto de inscritos suportado pela infraestrutura institucional até o fechamento desta reportagem, mas as inscrições seguem abertas nos canais oficiais do Centro Capoeira.
A abertura da Capoeira do Black para o monitoramento participativo reafirma o papel estratégico das instituições de pesquisa pública na preservação ambiental da região Norte. O uso de mecanismos de ciência cidadã na capital do Pará fornece dados necessários para compreender a sobrevivência de espécies vegetais e animais em solos urbanizados. Diante da crise climática, a consolidação dessas bases de dados colaborativas apoia o planejamento de políticas municipais de conservação de áreas verdes.
Por Redação NotíciaAmazônica



