Desnutrição silenciosa em idosos causa alarme no Brasil

Condição que passa despercebida é responsável por milhares de mortes e ameaça autonomia da população mais velha

No prato de dona Maria, a comida parece suficiente. Um arroz morno, um pouco de feijão, um pedaço pequeno de frango. Ela come devagar, mastiga com dificuldade, bebe pouca água. Aos 79 anos, vive sozinha desde que o marido faleceu. Os filhos moram longe, e a pensão cobre o básico. Aparentemente, tudo está bem. Mas o corpo dela está gritando em silêncio.

A desnutrição em idosos, apesar de muitas vezes invisível, está longe de ser inofensiva. Segundo um estudo da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em parceria com a UF dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, mais de 90 mil mortes de idosos no Brasil entre 2000 e 2021 tiveram a desnutrição como causa principal. Um dado tão grave quanto ignorado.

“O problema é que ela não se anuncia com fome explícita”, diz a geriatra Theodora Karnakis, do Hospital Sírio-Libanês. “Ela se camufla em cansaço, apatia, perda de força muscular, quedas frequentes. E, quando percebemos, a saúde já está fragilizada.”

A desnutrição em idosos atua como um ladrão sorrateiro: não arromba a porta, apenas tira aos poucos a autonomia, a imunidade, a disposição e até mesmo a vontade de viver. É comum que os sintomas sejam confundidos com o envelhecimento natural, o que posterga diagnósticos e compromete o tratamento.

As causas são múltiplas e perversas. Desde doenças crônicas, como diabetes e problemas cardiovasculares, até fatores sociais como solidão, luto, baixo poder aquisitivo e a dificuldade de manter uma dieta adequada diante de medicamentos caros. “Às vezes o idoso perde o apetite porque não tem com quem almoçar. Às vezes, porque sente dor ao mastigar”, explica a nutróloga Isolda Prado, diretora da Abran.

Além disso, alterações no metabolismo, dificuldade de absorver nutrientes e efeitos colaterais de medicamentos formam um combo que fragiliza o corpo com o tempo. Não é raro que familiares só percebam algo errado quando o idoso começa a emagrecer demais, cair com frequência ou apresentar sinais de desorientação mental.

E é nesse cenário que o sistema de saúde enfrenta um desafio duplo: diagnosticar precocemente e promover uma alimentação adequada para idosos que leve em conta suas limitações físicas, emocionais e econômicas.

A boa notícia é que há caminhos. Fracionar a alimentação em 5 a 6 refeições ao dia, priorizar proteínas de fácil digestão, suplementar vitaminas como B12, D e cálcio, e garantir uma hidratação constante são estratégias simples e eficazes. O preparo visualmente atrativo das refeições também pode ajudar a despertar o apetite.

Mais do que isso, é preciso colocar o idoso no centro do cuidado. Escutar suas queixas, adaptar os alimentos ao seu paladar e respeitar seus ritmos. “O envelhecimento não precisa ser um processo de perda contínua”, afirma Clineu Almada, geriatra do Hospital Albert Einstein. “Com nutrição e afeto, é possível preservar não só o corpo, mas a dignidade.”

A desnutrição em idosos é silenciosa, mas suas consequências são ensurdecedoras. E se o Brasil está envelhecendo, talvez seja hora de nos perguntarmos: estamos preparados para cuidar ou apenas para sobreviver à velhice?

Noticiaamazonica

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