Estiagem entre agosto e dezembro revela 100 quilômetros de praias fluviais no Pará e movimenta a economia de comunidades tradicionais.
O ciclo de cheias e vazantes do Rio Tapajós dita a dinâmica econômica e social da vila de Alter do Chão, localizada a 37 quilômetros de Santarém, no oeste do Pará. O recuo das águas no chamado verão amazônico, especialmente a partir de agosto, expõe extensas faixas de areia fina que impulsionam o turismo sustentável e a economia local. O fenômeno socioeconômico e ambiental ganhou projeção internacional a partir de 2009, quando o jornal britânico The Guardian elegeu a região como uma das praias de água doce mais bonitas do mundo, consolidando a importância da preservação ambiental para o sustento da população tradicional.
A subsistência das populações locais está diretamente vinculada às transformações da paisagem. Na vazante do rio, que se estende até dezembro, a região disponibiliza mais de 100 quilômetros de faixas de areia entre os rios Tapajós e Arapiuns. Esse cenário fomenta o serviço de transporte fluvial por barcos e lanchas, essencial para o deslocamento até atrativos isolados, como a Ponta do Cururu e a Ponta de Pedras.
Em contrapartida, no período de janeiro a julho, o nível da água sobe e encobre as praias, deslocando a atividade econômica para o turismo de navegação em florestas alagadas e igapós. É o caso da Floresta Encantada, passeio de canoa pelo Lago Verde cheio que gera renda para os moradores locais durante o inverno amazônico.
O impacto social do turismo reflete-se na gestão de áreas protegidas. Na Floresta Nacional do Tapajós (Flona), unidade de conservação administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a atividade turística funciona como alternativa ao modelo de exploração predatória. A reserva abriga 23 comunidades ribeirinhas e três aldeias indígenas, que dependem diretamente do turismo sustentável e do manejo de recursos naturais, como a extração de óleos vegetais e látex.
A entrada na Flona é gratuita, porém a governança local exige a contratação obrigatória de guias nativos para a realização de trilhas que chegam a 9 quilômetros na Comunidade de Jamaraquá. Essa exigência assegura a retenção de renda na própria comunidade e garante a segurança na manipulação do ecossistema.
A preservação da identidade local atua como resistência cultural diante da expansão turística. O carimbó, registrado em 2014 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, mantém centralidade na vida comunitária com rodas semanais no Centro de Referência do Mestre Chico Malta.
Além disso, a manutenção do território expressa-se no Festival do Sairé, celebrado em setembro. A manifestação, que remonta a pelo menos três séculos de história, constitui a maior expressão de identidade do povo Borari, etnia originária da vila. O festival organiza-se em torno da disputa folclórica entre os botos Tucuxi e Cor-de-Rosa, atraindo fluxo de visitantes no período em que as condições climáticas e o nível do rio encontram-se em equilíbrio.
As atividades comerciais baseiam-se na culinária de peixes amazônicos assados na brasa, servidos nas praias e em cooperativas familiares. O ordenamento desse espaço público e o controle do fluxo turístico na estiagem continuam sendo os principais desafios para evitar o desgaste ambiental do ecossistema fluvial da região.
Por Redação NotíciaAmazônica



