Inpa e Shell lançam centro de biotecnologia para recuperar terras degradadas na Amazônia

Com aporte inicial de R$ 18,7 milhões, iniciativa busca aplicar tecnologia científica em 15 milhões de hectares afetados no bioma.

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) e a Shell Brasil anunciaram a criação do Centro de Inovação Biotecnológica para Recuperação de Áreas Degradadas (Cibrad), sediado em Manaus. A iniciativa privada e governamental direciona um investimento inicial de R$ 18,7 milhões para o desenvolvimento de soluções baseadas na natureza. O projeto visa enfrentar um passivo histórico de aproximadamente 15 milhões de hectares de terras degradadas na região amazônica, buscando estruturar cadeias produtivas viáveis a partir do manejo de espécies nativas e da conservação genética, em vez de apostar exclusivamente no modelo de extrativismo tradicional disperso.

A recuperação de vastas áreas desmatadas que hoje se encontram improdutivas na Amazônia Legal é um problema estrutural que atravessa décadas sem respostas definitivas pelo poder público. Estudos liderados pelo pesquisador Alfredo Homma, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), apontam que o ponto central para reverter esse déficit na cobertura florestal é a capacidade de gerar renda por meio da restauração de ecossistemas antrópicos — áreas que sofreram intervenção humana e não deveriam ter sido desmatadas.

A análise econômica da Embrapa indica que o conceito conceitual de “floresta em pé”, isolado de infraestrutura, encontra barreiras severas de viabilidade de mercado. Isso ocorre devido à baixa produtividade dos recursos extrativos tradicionais, à sua alta dispersão geográfica e à ausência de economia de escala. Para romper esse ciclo de estagnação, os pesquisadores defendem a expansão coordenada de tecnologias agrícolas modernas, melhoria do capital social, assistência técnica continuada e a facilitação do escoamento da produção.

O financiamento de R$ 18,7 milhões aportado pela Shell Brasil provém das obrigações legais de aplicação em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Instalado na estrutura do Inpa, o Cibrad funcionará sob o modelo de inovação aberta, interligando órgãos governamentais, universidades, empresas privadas e startups tecnológicas.

Os gestores e cientistas envolvidos no consórcio argumentam que a consolidação do centro altera a abordagem tradicional sobre a economia ecológica da região. O secretário da Subsecretaria para a Amazônia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Dorival dos Santos, manifestou que o Cibrad atua como um espaço de convergência voltado à restauração florestal e à consolidação de uma economia regional de baixo carbono.

Por sua vez, Alexandre Breda, gerente de Tecnologia e Inovação da Shell Brasil, argumenta que a cooperação empresarial em plataformas de inovação aberta é o mecanismo viável para mitigar os impactos ambientais na Amazônia Ocidental.

De forma complementar, o diretor-geral do Inpa, Henrique Pereira, avalia que o foco principal das pesquisas translacionais do instituto será o desenvolvimento de uma silvicultura de alta performance. De acordo com o diretor, o avanço científico deve estar obrigatoriamente conectado a mercados de crédito de carbono e à criação de novos negócios sustentáveis que deem suporte econômico aos habitantes da floresta nas próximas décadas.

A instalação das atividades do Cibrad inicia-se pela fase de compras de equipamentos laboratoriais e catalogação das primeiras amostras de sementes nativas pelo subprojeto Amazon GeneBank. O cronograma do consórcio prevê que os primeiros resultados sobre a aceleração do crescimento de mudas por meio de nanotecnologia sejam apresentados nos relatórios técnicos do próximo ano.

O sucesso da iniciativa, contudo, permanece atrelado à capacidade de transpor o conhecimento gerado nos laboratórios de Manaus para as comunidades agrícolas e pequenos produtores que gerenciam diretamente os solos degradados no interior dos estados da Amazônia Legal.

Por Redação NotíciaAmazônica

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