Prefeitura de Manaus atinge metade da concretagem em obra de Niemeyer sob críticas por prioridades

Intervenção na zona Leste avança na construção de cúpula de concreto, mas gera debates sobre gastos em infraestrutura turística.

A Prefeitura de Manaus aplicou 202 metros cúbicos de concreto na cúpula da Oca Niemeyer, atingindo quase a metade dos 430 metros cúbicos previstos para a estrutura, na última quarta-feira, 13 de maio. A etapa corresponde à concretagem do quarto anel do edifício, que integra o projeto do Parque Encontro das Águas Rosa Almeida, localizado no bairro Colônia Antônio Aleixo, zona Leste da capital. Apesar do avanço técnico da engenharia em uma área de preservação, a destinação de vultosos recursos públicos para monumentos turísticos em bairros periféricos reacende as discussões sobre o deficit de saneamento e serviços básicos para a população local.

O projeto marca a primeira inserção arquitetônica com a assinatura de Oscar Niemeyer (1907-2012) no estado do Amazonas. A cúpula em formato de oca terá uma área total de 640 metros quadrados e um perímetro de 90 metros, exigindo uma técnica complexa de execução gradual com paredes de 60 centímetros de espessura que sobem apenas um metro por etapa. A obra ocupa um terreno de implantação superior a 17 mil metros quadrados, integrado a uma área total de mais de 120 mil metros quadrados voltada para o mirante que acompanha o fenômeno natural do encontro dos rios Negro e Solimões.

A construção de um complexo monumental na periferia da zona Leste expõe a contradição entre a espetacularização urbana e as necessidades imediatas das comunidades vizinhas. O bairro Colônia Antônio Aleixo, historicamente desassistido em termos de infraestrutura urbana de qualidade, passa a sediar um ponto de atração turística internacional que promete valorizar a paisagem amazônica e atrair capital de serviços.

Contudo, a conversão de fundos públicos para erguer restaurantes, quiosques e estruturas de convivência monumental contrasta com as demandas populares por moradia digna, pavimentação e escoamento sanitário adequado nas vias do entorno. Moradores locais questionam se a atração de visitantes resultará em melhoria real nas condições de vida da comunidade ou se a intervenção funcionará apenas como um enclave turístico segregado do tecido social periférico.

A engenharia detalhou as dificuldades operacionais impostas pelo clima regional, que exigiram readequações no cronograma de trabalho. O engenheiro responsável pela execução da obra, Leandro Ladeira, explicitou a rigidez dos métodos de sustentação da estrutura: “O ritmo está acelerado e ganhamos tempo com os jogos de formas usados para o trabalho. A execução da cúpula é feita de forma gradual, em segmentos de um metro, devido à necessidade de sustentação da estrutura. Os arcos da cúpula são concretados metro a metro, porque há formas por dentro e por fora”, explicou Ladeira.

Pelo lado da gestão, o diretor-presidente do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), Antonio Peixoto, defendeu que os novos elementos inseridos no projeto consolidam o espaço como um polo de desenvolvimento cultural: “Esse será o maior parque turístico de Manaus, um polo de incentivo à cultura e ao turismo. Além da arquitetura e da assinatura de Niemeyer, temos elementos que foram adicionados pela equipe do Implurb, dando ao espaço a configuração de um lindo parque público, com essa vista única do Encontro das Águas, que por si só já é um espetáculo”, afirmou o gestor.

As equipes técnicas pretendem dar continuidade à concretagem dos anéis superiores da cúpula nas próximas semanas, caso o regime de chuvas da região não force novas interrupções. A fase posterior à estrutura de concreto bruto compreenderá o início da demarcação das trilhas, áreas verdes e a instalação das redes de acessibilidade e esgoto para o restaurante e quiosques previstos na planta.

O avanço na cúpula da Oca Niemeyer aproxima o município da conclusão da estrutura bruta de seu novo cartão-postal, mas mantém tensionada a relação entre investimentos em turismo monumental e as prioridades sociais de Manaus. O equilíbrio entre o aproveitamento do potencial paisagístico e a inclusão socioeconômica dos moradores da Colônia Antônio Aleixo permanece como o desafio político central do projeto.

Por Redação NotíciaAmazônica

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