NASA estende missão GEDI até 2030 para mapear carbono da floresta Amazônica

Extensão garante quase uma década de dados inéditos sobre biomassa e estoque de carbono, reforçando políticas climáticas e monitoramento da Amazônia.

A missão GEDI voltou a operar no fim de abril com uma tarefa ambiciosa: escanear a Amazônia e outras florestas tropicais do planeta com feixes de laser capazes de revelar quanto carbono cada área ainda retém. A NASA confirmou que o programa — suspenso por um ano e reiniciado recentemente — será mantido até 2030, ampliando um acervo de dados considerado decisivo para avaliar a saúde das florestas e avançar em políticas globais de clima.

A Amazônia, que concentra 17% de todo o carbono armazenado em florestas no planeta, é um dos principais alvos da tecnologia. A partir da Estação Espacial Internacional, o GEDI dispara 242 feixes por segundo, produzindo mapas tridimensionais de ultra-alta resolução que permitem calcular biomassa, identificar degradação e medir variações ambientais em detalhe inédito.

“O GEDI é o primeiro sensor a laser desenvolvido para penetrar nas copas e mostrar a estrutura horizontal e vertical das florestas”, explica o engenheiro florestal Adrián Pascual Arranz, da Universidade de Maryland, que opera a missão em parceria com o Goddard Space Flight Center. Ele destaca que cada disparo cobre um círculo de 25 metros no solo, permitindo análises que antes eram simplesmente impossíveis.

O interesse pelos dados cresceu à medida que as mudanças climáticas se intensificaram e os mercados de carbono se tornaram mais populares. O pesquisador principal da missão, Ralph Dubayah, afirma que as medições são essenciais para o Inventário Global do Acordo de Paris e para mecanismos de monitoramento de emissões. “Estimativas de estrutura florestal e biomassa são críticas para o sucesso das políticas ambientais globais”, reforça.

Além da precisão, o alcance é um diferencial. O projeto fornece informações de áreas remotas, como Amazônia, Andes e Patagônia, e suas 25 bilhões de medições acumuladas desde 2018 estão disponíveis gratuitamente ao público. “O uso pela comunidade científica tem sido impressionante e capacitou pesquisadores e organizações no mundo inteiro”, afirma Dubayah.

Do ponto de vista técnico, os cálculos seguem modelos já calibrados entre dados de campo e medições orbitais. A equipe estima a altura das árvores, a quantidade de biomassa e, a partir dela, o carbono estocado — considerando que cada tonelada de biomassa equivale a 0,47 tonelada de carbono. Segundo Pascual, a continuidade da missão permitirá comparar áreas onde houve reflorestamento, manejo florestal ou combate a incêndios com regiões onde nenhuma intervenção ocorreu.

A tecnologia também tem aplicações diretas no combate a crimes ambientais. O ecólogo brasileiro Matheus Nunes, integrante da equipe GEDI, aponta que o sensor detecta até extração seletiva de madeira, uma prática discreta e difícil de identificar por métodos convencionais, mas que compromete a integridade da floresta.

Os impactos já aparecem em iniciativas de governos, bancos multilaterais e entidades ambientais. O Banco Mundial, a FAO e empresas de geointeligência utilizam os dados em inventários e estudos. Organizações como a Conservación Amazónica também têm buscado incorporar as informações a relatórios sobre mineração ilegal e desmatamento em países andinos.

A Amazônia — que se estende por nove países e ocupa 5,3 milhões de km² — segue no centro dessas análises. A diversidade entre áreas preservadas, regiões degradadas e territórios convertidos para agricultura é tão grande que a varredura do GEDI se tornou crucial para medir, com precisão, quanto carbono a floresta realmente consegue absorver. Em alguns pontos altamente preservados, o carbono armazenado em um único hectare equivale às emissões de 5 mil viagens aéreas entre São Paulo e Brasília.

Com órbitas repetidas a cada três dias, o sensor produz um retrato dinâmico das florestas em transformação. E agora, com a extensão da missão até 2030, pesquisadores terão uma série histórica mais longa para acompanhar tendências, impactos e possíveis recuperações. Como resume Pascual: “Com quase dez anos de dados, será possível avaliar de fato o efeito das ações de conservação e comparar o que mudou — e o que ainda precisa mudar.”

Noticiaamazonica

Artigos relacionados

Fique conectado

0FansLike
0FollowersFollow
0SubscribersSubscribe
- Advertisement -spot_img

Últimos artigos