Protestos indígenas barram privatização de rios e cientistas cobram pressa em proteção da Amazônia

Enquanto exportação de grãos pelos portos do Norte cresce 10 vezes, falta de ouvir comunidades gera guerra na Justiça e invasão de terras.

A pressa em transformar os rios da Amazônia em estradas para exportação de grãos virou motivo de disputa e acendeu o alerta de pesquisadores. Uma análise feita pela USP (Universidade de São Paulo) em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) avisa que o governo federal continua planejando grandes obras na região sem medir o estrago que o conjunto de ferrovias, portos e hidrovias causa na vida dos moradores e na floresta. A cobrança ganha força após protestos barrarem a privatização dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira.

A queda de braço começou após o decreto federal 12.600/2025, que colocava os três principais rios da região na lista de desestatização. A ideia era abrir espaço para empresas cavarem os leitos dos rios e abrirem canais para navios gigantes. A reação foi imediata: movimentos sociais protestaram em São Paulo e cerca de 2 mil indígenas ocuparam o terminal da multinacional Cargill em Santarém (PA) por mais de um mês, obrigando o governo a revogar a medida.

Essa correria para abrir caminhos na floresta tem explicação financeira. Dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) revelam que os portos do chamado Arco Norte despejaram 56,5 milhões de toneladas de alimentos no mercado internacional no ano de 2025. Em apenas 15 anos, o volume de exportação ali multiplicou por dez, transformando a região na principal saída de riquezas do país.

O problema é que o progresso do agronegócio avança sem que ninguém olhe para o estrago somado das obras. A pesquisa focou na bacia do Rio Xingu e mostrou que abrir uma estrada ou ferrovia puxa de carona o desmatamento e a destruição das nascentes dos rios, que ficam fora das áreas de proteção. Com isso, falta água limpa e peixe para os indígenas e ribeirinhos.

“O planejamento de transportes federal precisa ter um olhar territorial dos impactos cumulativos das ferrovias, rodovias, hidrovias e portos”, alertou Mariel Nakane, pesquisadora do ISA, lembrando que o governo desenha agora as regras de transporte até o ano de 2050.

O estudo defende que o Brasil adote uma ferramenta chamada Avaliação Ambiental Estratégica. Na prática, significa que o governo precisa sentar com os povos tradicionais e cientistas bem antes de começar a desenhar os projetos no mapa, evitando gastar dinheiro público com planos que depois viram caso de polícia ou são cancelados por ignorar quem mora no local.

O Ministério dos Transportes, o Ibama e a Funai já receberam o estudo, construído com ajuda da aliança de tribos Rede Xingu+. O fechamento do plano de logística do governo nos próximos meses vai mostrar se Brasília aprendeu com o recado dos protestos ou se vai continuar insistindo em obras de papel que geram conflitos reais no chão da floresta.

Por Redação NotíciaAmazônica

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