Brasil: Deputados cometem estelionato no discurso conservador e pressiona Lula por emendas

Ampliação de deputados e derrubada do veto ao IOF desnudam a incoerência da base conservadora e ampliam o cerco sobre o presidente Lula.

Na entrada do Congresso, o mármore branco reflete o sol de Brasília com uma intensidade que cega. Mas não mais do que a contradição política que reina lá dentro. Esta semana, parlamentares aprovaram o aumento no número de deputados federais e derrubaram o veto do presidente Lula a um trecho da lei que tratava do IOF. Para quem se elegeu defendendo menos Estado, o movimento soa mais como deboche do que como convicção ideológica.

A cena é simbólica: deputados que empunharam cartazes contra privilégios agora ampliam a própria estrutura — e reduzem a capacidade do Executivo de recompor o equilíbrio fiscal. A palavra “conservadorismo” parece, aos poucos, se esvaziar de sentido. Afinal, o que há de conservador em inflar gastos públicos e sufocar o presidente num momento de contenção?

Daniel Amaral, 42, vendedor autônomo de Belo Horizonte, diz ter votado “contra o sistema” nas últimas eleições. Hoje, se sente parte dele. “Aumentar o número de deputados é exatamente o que diziam combater. E ainda derrubar o veto do Lula para manter benefício fiscal? É um tapa na cara da gente”, desabafa. O sentimento de traição cresce entre eleitores de direita que observam sua representação congressual priorizar estrutura e orçamento — e não ideias.

A derrubada do veto presidencial sobre o IOF é ainda mais grave. A proposta vetada buscava dar ao governo fôlego fiscal em meio a uma economia instável. Ao negar esse respiro, o Congresso enfraquece a liderança do Executivo, pavimentando um caminho onde o equilíbrio das contas públicas fica submisso ao apetite das bancadas. O discurso oficial fala em autonomia do Legislativo. Na prática, o que se vê é chantagem orçamentária travestida de protagonismo institucional.

Lula, por sua vez, é forçado a administrar em um cenário onde seu projeto de país precisa negociar centímetro por centímetro com interesses parlamentares fragmentados e muitas vezes contraditórios. Não se trata de coalizão: trata-se de sobrevivência. O presidente, que tenta recompor políticas públicas e credibilidade internacional, encontra no Congresso um obstáculo disfarçado de democracia funcional.

O Brasil assiste, mais uma vez, ao embate entre quem precisa governar e quem insiste em travar o governo — não por ideologia, mas por conveniência. E é nesse ponto que a crítica ganha um alvo claro: não é Lula quem está dividindo o país. É o Congresso que fragmenta sua própria base ao trocar coerência por conveniência.

A ampliação de cadeiras e a derrubada do veto não são apenas decisões técnicas — são sinais de um Parlamento que fala como liberal, mas age como patrimonialista. E o mais intrigante: com aplausos tímidos da esquerda e silêncio constrangedor da direita. Enquanto isso, a população paga a conta com juros, impostos e frustração.

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