Governo concede 145 mil acres da Amazônia para startup testar reflorestamento comercial

Contrato de 40 anos com a Re.green em Rondônia usa créditos de carbono para financiar recuperação de área degradada.

O governo federal oficializou a primeira concessão pública de reflorestamento na Amazônia ao transferir a gestão de 145 mil acres degradados da Floresta Nacional do Bom Futuro, em Rondônia, para a startup Re.green. O contrato de 40 anos, assinado em março de 2026, estabelece um modelo que utiliza o mercado de créditos de carbono para financiar a recomposição florestal em larga escala. A iniciativa pioneira integra o plano nacional de restauração ecológica e prevê a inclusão de comunidades indígenas locais na governança territorial da área recuperada.

A Floresta Nacional do Bom Futuro historicamente sofre com o avanço do desmatamento ilegal e da grilagem de terras públicas. Diante do esgotamento das estratégias baseadas apenas na fiscalização de comando e controle, a concessão representa uma mudança na política ambiental ao tentar transformar a restauração de biomas em uma atividade econômica sustentável de longo prazo. O prazo contratual de quatro décadas foi calculado para cobrir todo o ciclo de crescimento das espécies nativas, monitoramento da biodiversidade e consolidação da captura de CO2.

A Re.green, empresa especializada na comercialização de ativos ambientais baseados na remoção de carbono da atmosfera, fará sua primeira inserção em terras sob domínio da União. Pelo direito de exploração, a startup pagará ao Estado uma taxa fixa de 0,7% sobre a receita bruta obtida com a venda dos créditos de carbono. A estimativa oficial anexada ao edital aponta um faturamento potencial de até US$ 2 milhões por ano com a comercialização desses títulos no mercado global.

A introdução do capital privado na gestão de florestas públicas divide opiniões e expõe assimetrias estruturais na Amazônia. Por um lado, o projeto injeta recursos em uma agenda urgente: cientistas alertam que o bioma se aproxima de um ponto de não retorno, onde a degradação se tornará irreversível se o país não recuperar a cobertura vegetal. O modelo atual vincula-se à meta do Estado brasileiro de restaurar 30 milhões de acres de florestas até 2030, além de um plano intermediário de ofertar mais 750 mil acres sob regime de concessão até 2027.

Por outro lado, o desenho de mercado gera ceticismo entre analistas e movimentos sociais devido aos riscos de financeirização da terra e à centralização dos lucros. Na área social, o projeto impactará diretamente uma comunidade indígena Karitiana que habita o entorno da reserva Bom Futuro. A sobrevivência e a autonomia dessa população dependem de mecanismos rígidos de governança para assegurar que os recursos provenientes do carbono gerem benefícios socioeconômicos reais na ponta, evitando processos de exclusão territorial.

A viabilidade comercial do modelo em escala real ainda enfrenta barreiras jurídicas e operacionais que afastaram grandes investidores. O leilão promovido pelo governo federal demonstrou que o setor privado mantém postura de cautela frente às complexidades da região amazônica.

A Re.green foi a única empresa a apresentar proposta para o lote de 145 mil acres. Um segundo terreno licitado na mesma reserva Bom Futuro, com dimensões ligeiramente menores, terminou o certame sem receber nenhuma oferta institucional. O desinteresse do mercado por metade da área ofertada evidencia as incertezas do setor privado em relação à segurança jurídica, aos custos logísticos do plantio de espécies nativas e à volatilidade do preço internacional do carbono.

As próximas etapas confirmadas do projeto envolvem a instalação de viveiros de mudas de árvores nativas e a estruturação de bases de fiscalização privada contra invasões nos limites da concessão. Técnicos da Re.green e lideranças do povo Karitiana devem iniciar as reuniões de planejamento territorial para delimitar as áreas de coleta de sementes e definir o cronograma de contratação de mão de obra local para os trabalhos de campo.

A equipe de engenharia florestal da concessionária inicia o inventário botânico e o zoneamento do solo da reserva Bom Futuro nos próximos meses para selecionar as primeiras variedades de sementes nativas que serão plantadas. A eficiência prática desse contrato inédito balizará as regras dos próximos editais que o Ministério do Meio Ambiente pretende lançar para tentar cobrir os 3,2 milhões de acres de unidades de conservação que hoje necessitam de restauração urgente no país.

Por Redação NotíciaAmazônica

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