Artistas da Amazônia usam música popular como barreira contra o avanço da crise climática

Manifestações como carimbó e toadas de boi-bumbá historicamente denunciam devastação e cobram inclusão de comunidades tradicionais em debates globais.

Mestres, músicos e lideranças tradicionais da Amazônia consolidam a produção cultural da região como uma ferramenta central de resistência e comunicação política diante do avanço da degradação ambiental. Muito antes da popularização de conceitos técnicos como “emergência climática” ou “ponto de não retorno”, gêneros nativos como o carimbó paraense e as toadas de boi-bumbá amazonenses já registravam o impacto das queimadas, do garimpo ilegal e do desmatamento sobre o território. A mobilização artística ganha relevância pública ao tensionar o debate sobre quem deve protagonizar as decisões econômicas e ecológicas que afetam a maior floresta tropical do mundo.

A relação entre a musicalidade amazônica e a preservação ambiental remonta a décadas de vivência comunitária nos territórios tradicionais. No Festival Folclórico de Parintins, o Boi Garantido iniciou o registro sistemático dessas tensões na década de 1990, com obras emblemáticas como “Lamento de Raça”, lançada em 1996, e “A Vida Depende da Vida”, de 1999. A cronologia estendeu-se pelos anos 2000 com composições dedicadas à denúncia do desmatamento e à exaltação de ativistas como Chico Mendes, assassinado na defesa da floresta.

No oeste do Pará, o Rio Tapajós atua como o eixo ordenador dessa produção cultural. Sua bacia hidrográfica abrange cerca de 500 mil km² distribuídos por quatro estados — Mato Grosso, Pará, Amazonas e Rondônia —, alcançando 74 municípios e abrigando ao menos 1,8 milhão de habitantes. É nessa região que operam grupos como as Suraras do Tapajós, primeira associação de mulheres indígenas a formar um conjunto de carimbó para denunciar as invasões e os impactos da mineração em suas terras.

A manifestação artística dos povos da floresta funciona como uma tradutora das transformações materiais impostas pelo modelo de desenvolvimento predatório. Segundo levantamento do Observatório do Clima publicado em 2023, o desmatamento responde por 46% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil. A música popular absorve esse cenário não como uma alegoria estética, mas como a destruição das condições concretas de subsistência de ribeirinhos, indígenas e quilombolas.

As alterações ecológicas afetam diretamente o fazer musical e o artesanato local. Lideranças relatam que a seca histórica registrada na bacia do Tapajós reduziu drasticamente a disponibilidade de matérias-primas essenciais como palhas, sementes, cuias e madeiras nobres (como cumaru e sucupira), utilizadas na confecção de instrumentos tradicionais como maracas e curimbós. O uso de materiais alternativos, a exemplo do PVC, surge como adaptação forçada, embora altere a identidade acústica original dos ritmos.

Para pesquisadores e ativistas, a riqueza poética e o conhecimento empírico dos mestres locais continuam subutilizados pelas políticas educacionais e ambientais do país. Há uma crítica contundente à folclorização e ao isolamento impostos a esses agentes, que frequentemente enfrentam barreiras burocráticas para acessar mecanismos oficiais de fomento, como as leis de incentivo à cultura.

“A Amazônia que trago em mim é uma escola que toda vez me ensina a me reinventar. Só em expressar o seu viver, a sua história, você já mostra uma intimidade com o seu território, logo com a natureza.” — Silvan Galvão, músico, percussionista e mestre de carimbó ligado a Alter do Chão.

“A gente viu, enquanto grupo musical, uma ferramenta de luta, de falar, de denunciar o que estava acontecendo no nosso território. A gente carrega o Tapajós com essa grande representatividade de falar e denunciar a mineração, as invasões. Mas sempre com uma percepção de fazer a luta ser mais leve.” — Val Munduruku, ativista socioambiental e integrante do grupo Suraras do Tapajós.

Diante das demandas por maior protagonismo e financiamento para os artistas do Norte, o Ministério da Cultura (MinC) informou que reconhece as expressões amazônicas como canais de mobilização socioambiental e enfrentamento da crise climática. A pasta apontou mecanismos como a Política Nacional Aldir Blanc, o programa Cultura Viva (Pontos e Pontões de Cultura) e ações integradas voltadas à realização da COP30 como as principais frentes para descentralizar recursos e garantir apoio financeiro a mestres e coletivos periféricos. O Ministério do Meio Ambiente também foi consultado sobre políticas conjuntas, mas não enviou resposta.

A circulação da produção musical amazônica segue em expansão para fora dos limites da floresta, com o grupo Suraras do Tapajós mantendo uma turnê nacional iniciada em abril para dialogar com grandes centros urbanos de outras regiões. O avanço dessas iniciativas e a manutenção dos calendários festivos tradicionais nas comunidades dependem, agora, do cumprimento das metas de repasses orçamentários federais previstos pelas novas diretrizes da Política Nacional Aldir Blanc ao longo deste ano.

Por Redação NotíciaAmazônica

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