Modelo extrativista baseado em pequenas propriedades assegura retenção de renda na Amazônia, mas avanço do monocultivo acende alerta ecológico.
A palmeira do açaí (Euterpe oleracea) consolidou-se como o principal motor da bioeconomia baseada na floresta em pé no estado do Pará. Com um sistema radicular que atua como barreira natural contra a erosão hidráulica nas áreas de várzea, a espécie monocotiledônea garante a subsistência de comunidades extrativistas e de espécies nativas ao frutificar continuamente ao longo do ano. Impulsionada pela agricultura familiar, essa cadeia produtiva mantém os recursos financeiros circulando no interior da Amazônia, embora pesquisadores apontem a necessidade de monitorar o avanço de plantios adensados para proteger a biodiversidade e os polinizadores locais.
O arranjo produtivo do açaí no Pará diferencia-se das grandes commodities agrícolas do país por não depender do modelo de latifúndio ou do desmatamento para expandir sua capacidade. O manejo baseia-se em técnicas de mínimo impacto repassadas por gerações, nas quais os produtores realizam o raleio seletivo de espécies concorrentes e eliminam trepadeiras, preservando a cobertura vegetal nativa e a integridade do solo argiloso das várzeas paraenses.
Para garantir a qualidade biológica, a atividade exige agilidade e velocidade logística, já que o fruto necessita de processamento em até 24 horas após a colheita para evitar a fermentação bacteriana e a oxidação. Esse fator forçou a descentralização de agroindústrias de polpa congelada e plantas de desidratação pelo interior do estado.
A expansão geométrica do mercado global do fruto, disputado pelas indústrias de cosméticos, suplementos e bem-estar, introduziu pressões ecológicas sobre o ecossistema de várzea. O fenômeno conhecido como “açaização” — a eliminação intencional de outras árvores nativas para priorizar exclusivamente as touceiras de açaí — ameaça a estabilidade ambiental da região.
Cientistas e órgãos fiscalizadores alertam que a perda de diversidade vegetal reduz drasticamente a presença de polinizadores essenciais, como as abelhas nativas sem ferrão, o que pode comprometer a produtividade futura das próprias palmeiras.
Para mitigar o impacto, cooperativas e centros de pesquisa locais, incluindo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), difundem manuais com limites rígidos de densidade por hectare. As diretrizes exigem a permanência de árvores de grande porte, como a andiroba e a virola, que asseguram a sombra necessária, o abrigo para a fauna silvícola e a ciclagem de nutrientes no solo sujeito às inversões diárias das marés oceânicas.
Apesar do aporte tecnológico nas fases de industrialização e congelamento da polpa, a base da coleta permanece estritamente manual e artesanal. O processo de colheita exige grande esforço físico das famílias ribeirinhas, que escalam estipes lisos que atingem até 20 metros de altura utilizando apenas a peconha — uma faixa improvisada de fibras vegetais ou tecido presa aos pés para dar sustentação na subida. Cada cacho maduro colhido rende até 6 quilos de frutos globosos roxo-escuros, movimentando uma economia de alta capilaridade social que reverte os lucros diretamente para municípios historicamente isolados do bioma.
As próximas etapas para a sustentabilidade da cadeia dependem da ampliação do alcance das certificações de origem e de comércio justo no campo. O monitoramento das áreas de várzea manejadas continuará sendo realizado de forma integrada pelas cooperativas e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O foco das ações institucionais está centrado na fiscalização do cumprimento das densidades máximas permitidas por hectare, coibindo a formação de monocultivos disfarçados e garantindo que a valorização do extrativista resulte em retenção de carbono e estabilização climática.
Por Redação NotíciaAmazônica



