Investimento de R$ 25 milhões cria cinturão de segurança em rotas de exportação e reduz o isolamento de comunidades ribeirinhas.
O roubo a embarcações e as ações criminosas contra as populações ribeirinhas nos rios do Pará registraram queda de 55,49% nos últimos cinco anos. O recuo nos crimes de pirataria é resultado da instalação de três Bases Fluviais Integradas pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup), que receberam um aporte de quase R$ 25 milhões nos últimos quatro anos. As estruturas operam em eixos estratégicos de escoamento de cargas e transporte de passageiros, buscando frear a atuação de grupos armados e reverter a vulnerabilidade social e de segurança que historicamente afeta as comunidades isoladas da malha hidroviária paraense.
A interiorização dos serviços de segurança pública por meio das unidades flutuantes gerou impacto direto nos índices de violência letal e patrimonial nas hidrovias. Segundo o balanço oficial da Segup, o estado contabilizou 182 ocorrências de pirataria fluvial em 2020. Cinco anos depois, durante as contagens consolidadas de todo o ano de 2025, o indicador recuou para 81 casos registrados. Na comparação recente entre 2024 e 2025, a retração foi de 10,98%.
A implementação dessas barreiras físicas de fiscalização eliminou um dos crimes mais graves associados ao roubo de cargas e de pequenas embarcações. Nos anos de 2023, 2024 e 2025, o sistema de monitoramento não registrou nenhuma ocorrência de latrocínio — o roubo seguido de morte — nos rios monitorados pelas equipes estaduais.
As três unidades flutuantes realizam a cobertura integrada de uma área total superior a 260 mil km². A localização das bases intercepta as principais rotas do comércio exterior paraense e do transporte coletivo de passageiros. A base do Baixo Tocantins blinda os acessos vizinhos ao porto de Vila do Conde, principal polo exportador de commodities do estado, enquanto a base Antônio Lemos controla o Estreito de Breves, canal de ligação obrigatório para o fluxo de mercadorias entre o Rio Amazonas e a capital.
Para os pequenos produtores e extrativistas, a presença do Estado representa a salvaguarda de seus principais meios de vida e trabalho. Moradores de comunidades tradicionais relatam que os saques frequentes de motores de popa e pertences familiares desestruturavam a economia de subsistência local.
“Moro aqui desde que nasci, e a base fluvial trouxe um alívio para mim e para nossas famílias. Eu já perdi duas rabetas, assim como outras pessoas, mas hoje estou mais tranquilo”, relatou o pescador Manoel José, de 74 anos, morador da comunidade Santo Antônio, em Abaetetuba.
O sentimento de retração da criminalidade é reforçado por João Batista, de 50 anos, residente da comunidade Igarapé Areia há mais de duas décadas. O pescador pontuou que, antes do cerco montado nas hidrovias, os assaltos a barcos de linha e a pequenas propriedades eram rotineiros, afetando a rotina de deslocamento e o transporte de mercadorias e de estudantes da região.
O modelo operacional adotado quebra o isolamento das forças policiais por meio do compartilhamento de inteligência e logística entre diferentes esferas governamentais. Cada base fluvial funciona com um contingente médio de 25 agentes fixos, mobilizando servidores da Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal, Corpo de Bombeiros e do Grupamento Fluvial de Segurança Pública (GFlu). A fiscalização fazendária e o combate ao contrabando são realizados por técnicos da Secretaria da Fazenda e da Receita Federal (Sefa/Sefaz).
Para patrulhamento de alta velocidade, o sistema conta com sete lanchas rápidas, das quais quatro são blindadas e capazes de romper a barreira dos 60 km por hora. As embarcações portam radares e câmeras térmicas capazes de identificar alvos na escuridão. As bases fixas dispõem de sistemas de rádio marítimo e digital, além de plataformas de comunicação direta configuradas para o recebimento de denúncias e o acionamento de flagrantes imediatos nas imediações.
O planejamento das forças integradas prevê o início das operações conjuntas entre a Segup e a Receita Federal nas próximas semanas, cruzando dados de manifestos de carga emitidos em Vila do Conde com as inspeções físicas realizadas na Base Baixo Tocantins. A atuação dos agentes focará na identificação de fraudes fiscais e no rastreamento de cargas de madeira e minérios. Paralelamente, o GFlu iniciará o cadastramento de embarcações de pequeno porte nas comunidades do entorno para mapear as rotas de pesca e criar canais digitais de alerta rápido contra novas tentativas de pirataria.
Por Redação NotíciaAmazônica



