Técnica preserva 98% dos nutrientes e permite armazenamento por até dois anos; iniciativa reúne 50 famílias indígenas e ribeirinhas no município do Jordão
No município do Jordão, no interior do Acre, onde não há acesso por estradas e o quilo do frete aéreo para a capital custa cerca de R$ 10, frutas abundantes na floresta se perdiam antes de chegar ao consumidor. Foi para contornar essa realidade que um projeto desenvolvido pelo Instituto Flor da Floresta passou a aplicar a liofilização — técnica de desidratação a frio que remove até 95% da água dos alimentos — em açaí, patauá, buriti e outras frutas amazônicas.
A iniciativa reúne aproximadamente 50 famílias indígenas e ribeirinhas, entre elas a seringueira Sebastiana Rocha, da Reserva Extrativista Alto Tarauacá, e a cozinheira Adriana Pereira de Souza. O método, diferente da desidratação convencional que usa calor, preserva 98% das vitaminas e antioxidantes, segundo a médica Marcela Thiemi Andrade Korogi, uma das idealizadoras do projeto.
A ideia surgiu entre 2022 e 2023, quando Marcela observava a produção local ser desperdiçada. “Uma passagem para Rio Branco custa cerca de R$ 2 mil e o quilo do frete aéreo gira em torno de R$ 10” afirmou. “Pensamos em um produto de valor agregado que pudesse gerar renda.” A saída foi apostar em um alimento de pequeno peso, fácil de transportar, sustentável e capaz de beneficiar produtores ribeirinhos e indígenas.
Atualmente, a produção ainda é modesta: cerca de quatro quilos de frutas liofilizadas por mês, comercializadas apenas dentro do próprio município. A estrutura disponível limita o potencial. Entre as necessidades apontadas pelo instituto estão a construção de uma unidade regularizada para beneficiamento, melhorias na rede elétrica, ampliação da capacidade de armazenamento e formalização de postos de trabalho.
“Hoje temos uma das gasolinas mais caras do Brasil, assim como o gás e a energia elétrica. O açaí, a abacaba e o patauá têm um tempo correto para retirada e despolpa. Essa logística continua sendo um verdadeiro desafio”, afirmou Marcela. Ela relata que também foi necessário capacitar as comunidades em práticas de higiene e controle microbiológico, ausentes no início do trabalho.
Apesar das dificuldades, o projeto chegou à etapa final do 13º Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, entre mais de mil inscritos. O resultado foi divulgado em 29 de maio. O instituto não ficou entre os vencedores, mas a médica destaca que o reconhecimento ajudou a dar visibilidade à realidade do Jordão. “Muitas vezes as pessoas nem sabem onde fica o Jordão ou quais são os desafios de viver aqui”, disse.
Um novo liofilizador de maior porte deve chegar ao município nos próximos meses, o que poderá ampliar a capacidade produtiva. Ainda assim, Marcela ressalta que o objetivo não é gerar lucro: “A ideia é pagar os salários, manter o funcionamento da iniciativa e reinvestir os recursos no próprio projeto e em outras ações sociais.”
Para ela, o principal legado está na possibilidade de construir alternativas econômicas a partir da floresta, sem perder de vista os saberes tradicionais. “Existe uma lua certa para plantar, um período certo para colher, um cântico específico para aquela semente. Existe uma ritualização da vida que preserva saberes muito valiosos”, afirmou.
Por Redação NotíciaAmazônica



