Cientistas detectam nova espécie de vetor adaptada a poços de extração de ouro e a ambientes desmatados na fronteira com o Brasil.
A proliferação da mineração ilegal e semi-formal na Amazônia venezuelana alterou a dinâmica ecológica de transmissão da malária, impulsionando o avanço de um novo vetor da doença na região. Cientistas venezuelanos identificaram no município de Sifontes, estado de Bolívar, a presença do mosquito Nyssorhynchus rondoniensis, espécie capaz de abrigar o parasita Plasmodium falciparum, responsável pelos casos mais graves e fatais da enfermidade no mundo. O inseto, que até então tinha registro oficial apenas no oeste do Brasil, adaptou-se às cavas de extração de ouro e à degradação ambiental provocada pelo garimpo na floresta.
Os estudos moleculares que confirmaram a identificação do vetor, publicados na revista científica Acta Tropica, apontam que o comportamento do Ny. rondoniensis sofreu modificações drásticas em decorrência da intervenção humana. Diferente de outras espécies de anofelinos que exigem grandes extensões de água natural e limpa para se reproduzir, este mosquito passou a utilizar poços abandonados de mineração e pequenos depósitos de água como criadouros artificiais.
A pesquisa de campo, realizada em aldeias mineradoras e assentamentos rurais de Sifontes como El Granzón e Tierra Blanca, revelou ainda que a espécie desenvolveu resistência a períodos de seca. O inseto expandiu sua atuação para áreas peridomésticas — o entorno imediato das residências —, mantendo atividade picadora durante toda a noite, o que elimina a necessidade de invadir o interior das casas para infectar as populações locais.
O avanço da infraestrutura ligada ao garimpo, com maior circulação de máquinas e combustíveis, acelerou a migração interna de trabalhadores e a disseminação da doença. Embora o país tenha sido o primeiro do mundo a erradicar a malária na maior parte de seu território em 1961, a crise estrutural recente reverteu os indicadores. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a Venezuela respondeu por 53% dos casos registrados em toda a região das Américas no ano de 2017.
A ausência de políticas públicas contínuas agrava o cenário nas comunidades tradicionais. No estado de Bolívar, onde vivem cerca de 17 povos indígenas afetados pelo garimpo, existem apenas sete clínicas ambulatoriais de atenção primária. O sistema difere dos Polos Base da Amazônia brasileira, carecendo de capacidade operacional para o controle epidemiológico e de estoques de medicamentos que cubram a demanda local.
“Apesar de menos malária ser alcançada em áreas onde há mais proteção da floresta, o desmatamento para mineração não parou de crescer, quando a solução para nossa saúde é, precisamente, controlar a atividade de mineração”, explicou a bióloga María Eugenia Grillet, coordenadora do estudo epidemiológico.
O surgimento e a fixação do novo vetor ameaçam o cumprimento das metas sanitárias da região no curto prazo. O Plano Nacional de Eliminação da Malária estabeleceu como objetivo reduzir a morbidade e a mortalidade da doença em pelo menos 60% até dezembro de 2026, tomando como base os índices de 2022 e elegendo o município de Sifontes como área prioritária para intervenção.
Os indicadores mais recentes do Boletim Nacional de Epidemiologia apontam para a persistência do agravo, registrando 25.259 casos acumulados da doença apenas na última semana de março de 2026. O volume representa um aumento de 8,3% em comparação com o mesmo período de 2025, evidenciando que as infecções continuam concentradas no estado de Bolívar, que acumula 16.962 desses registros oficiais e segue pressionado pela expansão das frentes de garimpo.
Por Redação NotíciaAmazônica



