Produtores Abrem a Nova Fronteira do Cacau no Pará

Modelos integrados com açaí e pecuária confinada multiplicam por quatro o valor da amêndoa e fomentam a agricultura familiar.

Produtores rurais do município de Castanhal, no nordeste do Pará, consolidam a transição de antigas pastagens degradadas pela pecuária extensiva para sistemas agroflorestais (SAFs) de cacau e açaí. Impulsionados por orientações técnicas da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), os arranjos produtivos locais rompem com o isolamento do eixo histórico cacaueiro do estado, combinando recuperação ecológica com alta rentabilidade. O modelo de negócios baseia-se na produção de cacau fino fermentado, cujo valor de mercado atinge até R$ 55 por quilo — valor quatro vezes superior à média do cacau convencional da região, cotado entre R$ 9 e R$ 10.

A introdução do cacau em Castanhal surge como alternativa econômica à exaustão dos solos provocada por décadas de pecuária convencional e tentativas frustradas de monocultivos agrícolas. Na Fazenda Monte Castelo, uma área utilizada como pasto por 40 anos e que inviabilizou o plantio de pimenta-do-reino devido à degradação severa passou a abrigar, a partir de 2019, um sistema integrado baseado na dinâmica nativa da floresta tropical.

O consórcio entre o cacau híbrido fornecido pela Ceplac e o açaí divide a receita da propriedade entre os dois semestres do ano. Enquanto o fruto do cacau tem seu pico de colheita na primeira metade do ano, o açaí garante o fluxo de caixa no período subsequente, reduzindo a vulnerabilidade dos agricultores face às flutuações sazonais do mercado de commodities. A produtividade média do cacau híbrido atinge 1,7 quilo por planta ao ano, em densidades de mil plantas por hectare, enquanto o açaí consorciado ultrapassa o patamar de 14 toneladas por hectare.

A estratégia de verticalização e foco na qualidade transforma o perfil socioeconômico das propriedades locais, gerando postos de trabalho e atração de investimentos. Na Fazenda Dom Manoel, uma área de 35 hectares que antes produzia hortifrútis perecíveis foi convertida em um sistema que associa cacau, açaí e dendê, garantindo o sustento direto de 25 famílias da região. Ambas as propriedades adotam protocolos rigorosos de fermentação e secagem de amêndoas para atender ao mercado de chocolates finos e artesanais, fornecendo insumos para marcas reconhecidas e desenvolvendo marcas próprias, como a Caupé Chocolate Artesanal.

Essa transição para a produção premium mitiga as desigualdades do campo ao fixar uma margem de lucro significativamente maior na origem do cultivo. Contudo, o avanço desses modelos exige investimentos em tecnologia pós-colheita e infraestrutura de beneficiamento, barreiras que os produtores buscam superar por meio da agregação de valor na própria fazenda e da diversificação de receitas com projetos voltados ao agroturismo e ao turismo pedagógico ambiental.

O produtor Osny de Azevedo Ramos, gestor da Fazenda Monte Castelo, defende que os projetos de reflorestamento e recomposição de áreas degradadas na Amazônia dependem obrigatoriamente de viabilidade econômica para que sejam adotados em larga escala: “Conservação e reflorestamento têm que estar aliados ao ganho financeiro do produtor, porque, do contrário, nunca vamos conseguir recuperar essas áreas.”

Ramos detalha a eficiência biológica alcançada pela integração com a pecuária intensiva confinada da propriedade, onde os dejetos dos animais são tratados e reinseridos nas plantações como adubo, eliminando a dependência de insumos químicos sintéticos: “Hoje, 70% de toda a adubação que fazemos é orgânica. Até o final deste ano, quero chegar a 100% para iniciar o processo de certificação.”

As experiências bem-sucedidas em Castanhal embasam as próximas etapas de expansão da cacauicultura no nordeste paraense. A Fazenda Monte Castelo planeja expandir sua área de cultivo dos atuais 22 hectares para 50 hectares produtivos de forma gradual, além de iniciar testes experimentais com o cultivo de baunilha consorciada, cuja projeção de faturamento atinge o patamar de R$ 200 mil por hectare.

No âmbito social, está em andamento a implantação de um projeto-piloto de cacau superadensado em parceria com agricultores quilombolas da região. Inspirado em modelos equatorianos e amparado por clones de alta produtividade da Ceplac, o sistema trabalhará com cinco mil plantas por hectare — densidade cinco vezes maior que a convencional — com o objetivo de alcançar produtividades de seis a os blocos de oito toneladas por hectare, desenhando uma alternativa de alta renda voltada especificamente para a agricultura familiar.

O avanço da cacauicultura tecnológica em Castanhal demonstra que a recuperação de solos degradados por pastagens na Amazônia é viável quando associada a cadeias produtivas de alto valor agregado. Os resultados apresentados pelas fazendas na feira Chocolat Amazônia consolidam o cacau fino e os sistemas agroflorestais como eixos estratégicos para a superação de modelos agrícolas predatórios, restando ao setor consolidar a assistência técnica e os canais de escoamento para que a transição ecológica atinja pequenas propriedades e comunidades tradicionais do interior paraense.

Por Redação NotíciaAmazônica

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